quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Pacto íntimo




Não estou aqui para educar os mal-educados
Mas para usar de boa educação e ser o exemplo vivo da compreensão
Não estou aqui para iluminar a vida de ninguém
Mas para iluminar minha própria sombra e ser exemplo de equilíbrio
Não estou aqui para mostrar caminhos
Mas para, procurando meu próprio caminho, instigar que os outros procurem os seus
Não estou aqui para ensinar os ignorantes
Mas para, abrandando minha própria ignorância, mostrar que todos têm algo a aprender se quiserem buscar
Não estou aqui para impor verdades
Mas para tornar consciente o que em mim era inconsciente, e me fazia ignorar que eu andava às cegas.
Não estou aqui para ser santo
Mas para exercitar a humanidade, deixando ir aos poucos o que é animal em mim...pois não posso almejar viver em mundos celestiais, enquanto em minhas atitudes e hábitos ajo como os porcos pisoteando jardins.
Não estou aqui para ser feliz em atitude egoísta
Mas para descobrir como realizar, com os outros, a possibilidade de um dia sermos todos felizes.
E você... Por que está aqui...?

Bíndi


sábado, 17 de setembro de 2016

Sagrado Corpo


Meu corpo, dorme.
Durma, pequenino
Sou teu Espirito e velarei por ti.
Como pequeno animal aos meus pés, te vejo dos planos do sono.
Não te preocupes que mesmo ao dormires eu velo, em estado de constante alerta
Sou tua consciência, em vigília ou não.
Tenho tanto a te agradecer!
Corpo que me auxilia, me carrega
Veste que me protege de muitos males, alguns até ignorados por mim.
Que é as mãos e braços de Deus agindo através de mim, aqui nesse mundo.
Pela manhã, levanta-te alerta e firme...sei que querias dormir mais, mas temos tanto a fazer...
Dominar a indolência e a falta de vontade é uma das lições a aprender através de ti.
Tu me ensinas muito, sem o saberes.
As lições da dor, as lições do cansaço, do temperamento difícil hereditariamente originado
Às vezes deixo-me levar por ti, tuas paixões, interesses, sofrimentos carreiam-me pra longe
Me perdoa...porque deveria ser eu o teu mestre, e te guiar por caminhos firmes e seguros
Eu que, afinal, tenho milênios de vida, enquanto que tu apenas despertaste nesta.
Deverias seguir-me, confiante, como um cachorrinho que ama seu tutor e mestre e a ele confia a própria vida.
Ao invés disto, tantas vezes deixo a realidade nos golpear com seus freios educadores
Antes que nos joguemos, de frente, contra os muros e precipícios das inclinações imaturas.
Desculpa-me, então...não quis te machucar com a minha imprevidência. Teu bem, é o meu bem...
Precioso vaso que Deus me confiou para que eu o usasse como instrumento de Sua vontade generosa,
Mostrando a mim, através de ti.
Um dia, te deixarei para trás, como roupa muito usada
E como gostaria de ter ensinado, a cada célula tua, o que é amar
Para que um dia elas construam outro corpo, veste de alma mais evoluída que a minha,
Já cientes de como viver uma vida em generosidade e paz.
Que os anjos te abençoem, e a mim também.


Bíndi

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Descendência






Descendência

Só um momento, e já deixarei a sagrada nave
antes que a santa missa inicie seus ritos
Sim, eu já estive antes num local sagrado
Onde vi os fumos de oferendas se elevarem ao céu
e a glória de um irmão ser exaltada por Deus.
Muito longe já se vão as eras
em que este mundo era apenas o óvulo da vida.
Estávamos destinados a gerar os novos homens
que haveriam de lavrar os campos e construir cidades de paz
Esta seria a herança de meu irmão aos seus filhos bem-amados.
Porém, quem prevaleceu foi o Outro
O Malquerido, o Indesejado.
Ah...tanto tempo se foi e ainda sou ferido em minha mente
Pelas lanças pontiagudas de meu orgulho bastardo.
Hoje eu bem sei que a oferenda enaltecida
Não era apenas da ovelha a carne,
senão a própria carne de meu irmão.
Pois foi queimado por ele no altar do sacrifício
não o animal de seu rebanho, mas seu animal interior.
A fumaça subindo aos céus agradou o Criador
porque era feita do lento forjar de uma alma
queimando dentro de si a bestialidade dos instintos,
a ignorância, a pequenez, a agressividade, o ciúme e a gula
Ele imolou em si a fera e fez nascer o humano
E para ele a face de Deus voltou-se alegremente
Pois Seu filho amado compreendera o sacrifício exigido.
Eu, caí.
Mas foi minha a descendência que seguiu-se então
chegando aos dias de hoje, ao número de bilhões.
Quem seriam eles se fossem filhos de meu irmão?
Se não herdassem de mim a semente amarga da selvageria?
Consigo olhá-los com carinho, pois compreendo fundamente a sua imperfeição.
Hei de ajudá-los a reerguer os templos caídos de almas adormecidas
E passo a passo, em suas perturbadas vidas,
amansarem as feras de todas as paixões indignas para que a alma aflore.
Prometo esforçar-me para auxiliá-los, meus filhos, a burilar as rochas e acordar as pedras.
Eu, caí.
Eu, Caim.


Bíndi








sábado, 12 de março de 2016

Armadilhas do Tempo



O teu amor é minha voz trêmula tentando te dizer adeus, e minhas mãos inertes não querendo te acenar. O teu amor estava na estátua do Senhor morto, nas roliças pombas das praças, estava na medalhinha do cordão dourado em teu peito batendo em meu rosto enquanto me amavas. Estava nos olhos com que me miravas nesse momento, cujo olhar parecia vir de um lugar fora do tempo e espaço.

Mas ah...estava mais ainda em minha alma, tão entranhado em minha alma que ela arranhou-se toda nos espinhos da saudade que me atravessaram antes mesmo de minha partida. E o trem chegou, tão veloz, tão veloz...e me levou de ti numa sofreguidão indiferente que não deu por conta do meu espectro parado ainda lá, na estação a te olhar. Ficou para trás meu desejo de dias contigo, te acompanhando pelas escadarias em que subimos nós e desceste só.

Teu amor foi tão grande que não permitiu que eu te visse partir, pois sabias que meu coração congelaria no momento em que me desses o último olhar. Preferiste tu ser aquele deixado para trás, acenando e correndo atrás do comboio que me levava, chorando, a uma vida sem ti.

Mas eu sei que o silêncio é a pausa entre duas palavras de carinho, e a saudade é a pegada que o amor deixou: um dia andarei sobre meus próprios passos, refazendo o caminho que me afastou de ti, e encontrarei ainda a sombra de tua imagem na estação, impregnada como almíscar nas rendas do tempo. E nesse dia, do fundo do silêncio, eu ouvirei a tua voz a me chamar, e cada rosto que cruzar por mim verá a luz daquela que vai reencontrar seu grande amor, pra nunca mais, pra nunca mais, se separar.


Do teu amor, Bíndi!


domingo, 3 de janeiro de 2016

Pequena Fábula do Construtor Equivocado (N.P.)





Então o grande Arquiteto entregou ao Construtor um desenho divino, que se fosse construído com esmero, com a colaboração da força, amor e tenacidade deste, resultaria na mais bela obra do universo.

Para realizar tal projeto, ao Construtor era dado montar andaimes, tapumes e fôrmas que o auxiliariam, peças feitas de tábuas simples que outra função não tinham que a de servirem de apoio enquanto exercitava o Construtor a consecução de sua verdadeira obra.

Porém, fato muito estranho se deu, pois o Construtor, a sapatear em seus andaimes na sua atividade diária, achou por bem ir ficando por ali, onde poderia montar uma moradia fácil, em contrapartida da edificação do desenho do Arquiteto, que às vezes o enfastiava por ser trabalhosa demais e exigir paciência e desvelo; afinal, seguidamente caíam tijolos mal alinhados, a massa que deveria unir tijolo a tijolo era fraca e tinha que ser refeita, enfim, a coisa toda era obra de muito mourejar.

Assim, o andaime frágil e limitado passou a ser a finalidade do Construtor, que nele foi juntando apetrechos, utensílios e móveis, decorando conforme seus pendores, até que o tal ficasse ataviado e mobiliado, constituindo-se na sua moradia oficial, então.

E pela vizinhança toda, por toda a cidade, outros Construtores assim procediam, desistindo de erigir o prédio do desenho original, cada qual em fase diferente...alguns, mais empenhados, levantavam paredes inteiras, outros impacientavam-se já nos alicerces, alguns, muito aplicados, iam até o telhado mas, ao olharem para o chão, como que atraídos pela facilidade de antes, pulavam de volta ao seu andaime, rudimentar e grosseiro, porém atrativamente conhecido.

Assim, por entre aqueles andaimes balouçantes, podíamos entrever belas obras inacabadas, tristemente aguardando um término, e Construtores muito ciosos de enfeitar seus andaimes com toda quinquilharia que ajuntavam, comparando o seu com o do vizinho, trabalhando nisto todos os dias, às vezes praticando delitos, tudo para ter o melhor andaime possível. Alguns, de tão pesados pela carga que lhe foi disposta em cima, despencavam com o Construtor e sua família, afinal,vamos convir, o madeirame frágil foi erigido para ser instrumento temporário, e não moradia definitiva. (Que ignorância dessa criatura, pensamos nós...)

Certa vez, um Construtor andou para longe, para bem longe da aldeiazinha em que morava, e pensando estar perdido, avistou com assombro uma Obra praticamente acabada. A primeira coisa, chocante para a pobre alma, e que lhe chamou a atenção, foi a ausência de andaimes: o prédio surgia inteiro, alvo e de linhas simples, com o sol refulgindo dourado em suas formas divinas. Ele já tinha ouvido falar de tais monumentos, idolatrados por alguns como algo que havia descido dos céus. Mas segundo se dizia entre certos grupos, havia sido obra de um Construtor da própria aldeia, o qual contava para quem quisesse ouvir que havia iniciado do mesmo ponto a partir do qual todos iniciavam: subindo em andaimes e com o auxílio destes, colocando tijolo a tijolo, com vontade, atenção e dedicação absolutos. Com muito esforço terminara a obra, e assim como havia montado os andaimes, desmontou-os um a um, peça por peça, pacientemente, para deixar então a Obra verdadeira à mostra, em toda a sua beleza: as grandes janelas sempre abertas deixavam ver a claridade maravilhosa que irradiava através das claraboias do teto, por onde o prédio recebia a luz direto das estrelas. E era assim que o grande Arquiteto havia programado para ser.

A pobre criatura, abismada com a história que a ele mais parecia um conto de fadas, retornou por fim à sua aldeia. Todavia, percebeu quão toscas eram as edificações de todos em comparação com aquela moradia excepcional. Pareceu a ele insano erigir a vida sobre algo tão frágil e deixar de lado a sólida obra que duraria para sempre. Mas ao chegar em frente à sua moradia, a esposa o chamou para decidir de que cor pintariam os tapumes que já descascavam da chuva, e ele esqueceu por completo do que havia presenciado. Outro dia, talvez.

Bíndi

Imagem: africaburn.com
 

domingo, 2 de agosto de 2015

Deborah




Querida irmã, que há tempos não contacto, saudades tuas...
Não digo que há tempos não a vejo, pois a tenho visto sempre nas minhas lembranças!
Vejo que choras, pareces tão triste...
Da última vez que você me viu, eu usava um vestido branco, com bordados azuis, desgrenhado e sujo de minhas andanças no quintal; sempre amei a natureza, como sabes, e amo-a ainda mais aqui de onde posso ver a verdadeira grandiosidade da teia da vida.
Eu ainda era uma jovenzinha, mas de lá para cá, cresci tanto, e como queria que me visses agora!
Como eu poderia ir embora tranquila, deixando-te assim?
Imaginando-me só, te escondes dos outros... 
Pensando-me pra sempre perdida, te proíbes o riso, ofereces teu corpo à inércia.

Lembro-me de como era nosso inverno, uma sucessão de dias sombrios, cinzentos, amargos...
E foi num desses dias que peguei a câmera que me deste, e saí a fotografar aquelas paisagens desmaiadas na tristeza da chuva e do frio.
E foi quando olhei as fotos que percebi algo que não havia visto antes, no olhar panorâmico que eu lançava às coisas:
Ela estava lá, pequena flor que se misturou à imagem e que em sua humildade não se sobressaiu...
Por brincadeira, fui fotografando assim, a esmo, tudo o que via...
E em cada canto a vida teimava em viver.

Mesmo no guarda-chuva esquecido no banco, havia ainda a mão de quem lá o deixou. Na vila pobre, as crianças sorriam...
Acho que foi assim que me chamou a atenção a lágrima que em teu rosto rolava.
Em meio a todo o espaço por onde agora eu poderia planar, aquela pequena gota de prata paralisou-me...
E vi que em meio à vida, havia dor.

Irmãzinha, eras a mais velha...mas agora, ao contemplar todas as vidas que já tive, vejo-me eu a mais velha, a mais experiente, e apta a te consolar, assim como me consolavas quando eu não entendia as asperezas da vida. Mas pra isso, querida menina, preciso que te permitas ser confortada, não bloqueando teu coração com tanta tristeza, a ponto de eu não conseguir te atingir com meus pensamentos de amor. Um dia, vais me ver com teus olhos novamente, e eu te direi que valeu a pena a breve separação que me deu tempo de amadurecer para oferecer a ti e aos outros um coração mais sábio. Essa é a pessoa que eu desejo ser...como ainda não posso sê-la, ao menos me cerco das coisas que ela faria. Eu trabalho, eu coopero, eu estudo. E te espero.

Agora deixa-me partir. Sou uma andorinha...!
Olha pra mim com toda tua alma: sinta meu olhar e minha bênção, pois antes desta carta terminar, quero ver a luz azul dos teus olhos. Esse será o farol que me guiará a ti, quando aqui chegares.

Um beijo de beija-flor...da tua irmã
Deborah


Bíndi




domingo, 10 de maio de 2015

Janelas Cerradas




Problemas.Papéis.Trabalho a fazer. Planilhas. Prazos. Balancetes. Mais papéis. Mais problemas. Madrugada adentro lá estou eu, o rosto pálido à luz do monitor, as lembranças galopando na mente, o chefe cobrando, as contas se acumulando, a mulher doente no hospital, dia após dia esta rotina estafante, as únicas mudanças que acontecem são pra pior, cadê a esperança meu Deus...? Pergunta insana, desde quando nos respondes...?

Então as planilhas travam...o computador pára, caiu a internet. Droga de vida, é sempre assim, lá se vai meu tempo perdido...e piora ainda, meu Deus, caiu a energia elétrica, onde nós estamos, pagando essa fortuna e toda hora no escuro...? Deus, tu estás aí fora, aí em cima, tu nos ouves, pobres formigas...? 
E esse breu na sala, e tanto trabalho atrasado, nem o celular funcionando...preciso saber da esposa, tão doente, tão débil, me sinto tão frágil agora...todos os fios se desconectaram, sem luz, sem som, sem bytes, quem sou eu sem nada...?

Subitamente, uma cascata de luz na sala. Um holofote? O farol de uma carreta varando a noite? Que luz é essa, que assim aparece, naquela janela?
Abro devagar, pode ser a lanterna de algum marginal, algum vizinho insano e insone invadindo o quintal, alguma coisa insalubre vinda de lá sei onde...

Mas ali, no meio do pátio, está parado aquele Ser. Pairando. Bailando na luz. Uma luz tão rica que nem percebo se tem cores...a cor é a própria luz, e a aura que a luz desenha ao redor dele pisca, ondula, palpita como as asas de um grande pássaro branco de um mundo ainda por inventar-se. E com que olhar me encarou...

A eletricidade volta. Fecho a janela, volto à minha mesa. Ainda bem que a luz voltou, sou um pobre mortal, não tenho ajuda, não vejo respostas. Voltemos aos problemas.

Bíndi

 

domingo, 19 de abril de 2015

Encruzilhadas




Andei demais, aquele dia. Corri contra a distância, contra o tempo, contra as lembranças, corri contra o passado e, principalmente, contra o futuro.
Numa cama de hospital, minha mãe jazia. E de olhos fixos na cruz de Cristo na parede, pedia...busquem meu filho, preciso dele antes de sair da vida...tanto tempo sem vê-lo,  eu irei em desespero se não me despedir...!
Quando recebi a chamada, não pude acreditar...minha mãe morria...! Não era eterna então, não me esperaria pra sempre junto ao fogão? Eu não teria todo o tempo do mundo pra visitá-la, e tocar de novo seu peito cheio de calor humano, ter seu abraço que me embrulhava todo, ver de novo seu olhar azul antes do momento insano...?
Não...e me enfiei no carro e nele há horas rodo nesta estrada nua. Mas adiante, um carro no acostamento quebra as linhas da paisagem: uma mulher em desespero me acena...e pensando que, também ela, poderia ser a mãe de alguém que a desejava encontrar sã e salva, parei. Não havia casas, nem viva alma por quilômetros além de nós dois ali, naquela região campestre.
Ela apontou o capô levantado de seu carro, e me agradeceu sorrindo por ter sido o único ser vivo a aparecer, em várias horas. Mas nem bem tinha me aproximado dela e outra figura emergiu da sombra, e um ferro gelado me tocou a nuca...
Passa teu dinheiro, teu celular, teu carro, tudo o que tem, não te deixo nem a vida,  maninho...a tua hora chegou, aqui, agora.
Nesse momento vi que minha vida não valia nada. Porém não foi por ela que entrei em desespero...mas pela lembrança de minha mãe, me esperando angustiada. Num átomo de segundo a imaginei recebendo uma notícia triste, afundando a cabeça num travesseiro de espinhos, e tal qual o Cristo que ela tanto amava, sangrando por outro alguém.
Eu, que não sabia rezar, nem em nada acreditava, lembrei de Deus e todos os seus anjos, e duas palavras apenas pensei, orei, supliquei...me ajude!
Me ajude Deus, porque não morro sem me despedir de minha mãe querida...Preciso ao menos de mais algumas horas...
Um ruído seco de ramos se partindo veio da margem da estrada. O ladrão e a comparsa, visivelmente apavorados por algo que eu não conseguia ver no momento, fugiram. Voltei-me, mas só vi uma uma camisa quadriculada, vestindo um vulto de chapéu de palha, sumindo na mata do mesmo jeito que apareceu.
Mesmo cambaleando, corri atrás de meu salvador por entre um milharal já há muito tempo colhido, mas nada via além de talos altos e folhas secas. 

Entretanto, ao avançar até uma clareira, no chão, de camisa vermelha quadriculada, chapéu de palha, inanimado e desarticulado havia...um espantalho caído.


Bíndi

Imagem: Red car by Arte Foto

Alimentando Pombos



Chega a mensagem da amiga, de coração carinhoso
em que a doce imagem da menina me hipnotiza
eternamente alimentando pombos, num mundo só seu.
Tão doce mundo, tão delicada luz, tão tudo de bom, demais...
Mas esqueci de fechar as janelas e frestas da casa
e a vida de verdade entrou, desaforada e estridente 
pela voz do repórter do jornal das sete, que assim como alguns 
do jornal das oito, das nove, das dez e das madrugadas obscuras 
parece se deleitar em nos deitar notícias ruins pela televisão afora. 
Sim, eu sei que o mundo tem acontecimentos maus... 
Mas é preciso apresentá-los assim, nessa crueza dura? 
Ou pior, nessa narrativa que abusou de toda a maquiavélica criatividade 
para averiguar os detalhes mais indecorosos e sórdidos, 
entrevistando das vítimas a mãe, a irmã, a tia e os parentes todos 
e tentando espremer deles mais lágrimas, mais dores, 
cutucando as feridas abertas com a vozinha doce e falsa 
e acordando sentimentos doloridos e memórias perenes que talvez nem despertassem 
sem essa voracidade pela notícia violenta e sinistra. 
Deixem em paz as vítimas e seus queridos, não preciso da notícia inteira, 
esquartejada, detalhada em precisão cirúrgica e posições cadavéricas. 
Alguém morreu, eu sei. 
Mas não deite fora o respeito pela morte e pela vida como a água de um balde sujo 
Nem atire na vala comum mais um acontecimento, 
fazendo dele apenas uma isca para os números de audiência. 
Você tirou minha paz, repórter do jornal das sete 
e nem tive tempo de trocar de canal ou de baixar o volume 
antes de trocar de alma para sair desse mundo 
onde a menina eternamente alimentava pombos.



Bíndi


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Acqua Benedicta



Chove.
Chuva bela, graciosa
Molhando a mística, encarnada rosa
Água abençoada
água que tudo lava
Sonham contigo os desertos
Beduínos, andantes dispersos
Como anseiam por ti!
Elefantes da Namíbia,
em quilométricas trilhas
têm na vida um caminhar
somente pra te provar,
num fiozinho de nada
brotando do chão perverso.
Em rios subterrâneos
Te escondes durante o estio
E com que doce alegria
Te veem chegar, nas monções

E eu, em longínquos rincões
Tenho-te em abundância.
Ter-te? Não me pertences
A mim és só emprestada
água tão abençoada
que eu vejo escorrer todo dia
Lavando-me a humana sujeira
Tão dócil a escorrer da torneira

A água desce, serena
na testa em febre da humana prole
O choro da Mãe abençoa
mesmo ao filho que a atraiçoa.
Chove.

Bíndi 







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